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NOTÍCIAS

Kilombo Manzo e a cultura alimentar kilombola

 

Sou Joana Dark da Silva, e quando me iniciei no terreiro de candomblé fui renascida e recebi o
nome de Sessiluanvy, mulher preta, quilombola e de terreiro. Eu sou a segunda de seis irmãos,
filha de Efigênia Maria da Conceição, conhecida como Mametu Muyandê, e sou do Kilombo
Manzo Ungunzo Kaiango.


Quando eu tinha 10 anos, eu que criava meus irmãos quando minha mãe trabalhava. Fomos
criados pela direção do preto velho dela, e reconhecemos ele até hoje como nosso mentor e
nosso pai, que é o Pai Benedito. Pai Benedito é uma referência em nossas vidas, e cada um/a
recebeu uma função dele. O meu irmão faleceu, ele tinha a tarefa de cuidar das plantas, dos
bichos e das ervas, então quando a gente adoecia, ele sabia que ervas eram certas para nos
curar, para tirar a dor, para nos alimentar. Eu fiquei na função de cuidar da alimentação, e
também ajudava a lavar a roupa e buscar água no córrego.


Pai Benedito é um ancestral muito sábio, eu não consigo enxergar minha mãe quando está
incorporado como minha mãe, eu sempre vejo ela com a entidade dela. Então a gente não tem
muita definição de quem é minha mãe, quem é Pai Benedito, quem é a entidade que está nela.
Então, recebi essa função de cozinhar.


Na época, eu não tinha esse cargo, que é kinfumbeira, um cargo que você só tem direito depois
que seu corpo está fechado, que você não gera mais filhos, que é a fase da menopausa.
Desde pequena/o fazemos as festas, e começamos com a festa de Esù. Nesta festa, fazemos as
oferendas para Esù, que é no mês de fevereiro, após a quaresma. No sábado de aleluia,
fazemos as comidas para as entidades, e também temos a festa do Esú Paredão, onde fazemos
as obrigações para ele e depois servimos comidas de buteco.


E o que é a comida de buteco que eles falam hoje? A comida de buteco vem dos ancestrais que
eram os Aximxinhos – os restos que os donos não usavam, que é o pé de porco, pé de galinha,
moela, pão, tudo aquilo que fazia em uma senzala, faz um molho com aquilo tudo e se oferece
para quem está ali.


Depois da festa de Esù vem a festa de Ogum, nosso senhor da estrada, senhor do ferro. Ogum
não é o senhor da guerra. Tudo bem que Ogum também vai para guerra, mas Ogum é um
agricultor, então ele que é responsável pelo plantio, ele é dono do ferro! Servimos para Ogum o
feijão preto e o Cará, que é o cará barbado. Porque o feijão preto? Porque o feijão representa o
ferro, a saúde, todos que precisam de ferro comem o feijão preto. O feijão é fortificante, e
Ogum, é ferro, é força, é cultura, é plantio. Então servimos o feijão preto, o Cará e a cerveja
para Ogum. Não existe festa de Ogum sem cerveja.


Em junho, temos a festa de Xangó. Então rodamos o Amalá na casa, fazemos as oferendas
para Xangó. Neste mês, também temos o dia de Obará. Obará é o senhor da sorte, da riqueza,
da prosperidade e equilíbrio. Nas festividades do mês, temos a fogueira de Xangô, e em muitas
casas tem a fogueira de Lwago. Neste mês, nós fazemos o quiabo. E por que essas comidas?
Por que nascem tanto na seca, quanto na chuva.
Depois vem o mês de agosto. Nossa! Esse mês é o silêncio, do senhor da Terra, é o mês da
palha. Então neste mês a gente fica de preceito, do dia 31 de julho ao dia 1º de setembro. É o
mês que todo mundo usa branco, não comemos carne de porco, não bebemos, não vamos em
festa, não fazemos farra nenhuma, que é o mês do silêncio. Costumamos dizer que é o mês do
silêncio por que o Senhor, o dono, está na terra.

Começa com o dia de Quitembo, Angorò, Catendè- Ossain, Zumba e todas as qualidades de
orisàs que carregam palha. E no dia 16 de agosto é o dia deste senhor, então respeitamos
muito porque recebemos muitas bençãos dele. Fazemos pipoca e grãos. Também fazemos a
kokwana que é uma mesa muito rica, e fazemos as comidas de todos os Orisàs, nkisis, Santos.
A comida é servida na sala em folha de banana e ela é cantada. Se a kokwana durar duas
horas, por duas horas ela é cantada. Todos comem, e o que eles (Orisàs, nkisis) não querem
enrolam na folha de banana e fazemos um fundamento, e levamos este presente. Não falamos
despachar comida, nada é despachado, tudo que você dá para o Orisàs ou para nkisis é um
presente.


Ai vem a festa de Iansã em setembro, novamente o Manzo fica de preceito, por que
Iansã/Matamba é o santo da minha mãe, é a senhora dos ventos, dos raios da tempestade e
dos bambuzais. Fazemos a festa de Iansã e fazemos o acarajé. Algumas pessoas vão no
mercado e compram a farinha do acarajé. Nós compramos o feijão fradinho, colocamos de
molho, pilamos o feijão para fazer o acarajé.


Essas comidas vêm da ancestralidade, vem de muito, muito, muito tempo. Hoje essas comidas
são comercializadas, mas ninguém sabe o fundamento destas comidas. Nós não vamos colocar
nossas comidas em uma praça que circula várias pessoas para vender! Comida de terreiro não
se vende, se oferece.


Passou a festa de Iansã, temos as festas das Iabás das nkisianas, vestimos todas as nkisianas e
ali oferecemos todas as comidas para elas.


A comida quilombola é comida de verdade, quiabo, orapronóbis. Aqui não servimos strogonoff,
macarronada, não tem isso! A comida de terreiro é comida que dá sustância, por que nós
temos serviços 24 horas por dia, então temos que nos alimentar, comer um biscoito frito, um
pão, um cuzcuz, um fubá suado… isso que é comida de terreiro! Mandioca, batata doce. Arroz
de Kilombo, pé de galinha, canjiquinha, mingau de fubá com couve (bambá de couve como
dizem hoje).


Para finalizar, temos as águas de Oxalá! Que se comemora em dezembro, mas nós achamos
que não é bem certo, pois estamos nos preparando para o Natal, farra de fim de ano. Mas na
casa de meu pai tem as águas de Oxalá. E para fazer as águas de Oxalá hoje em dia é muito
difícil pois quem carrega o pote são meninas virgens. A gente pega e veste todas essas meninas
de branquinho, vai para nascente antes do sol nascer, enche o pote, e vai fazendo toda sua
caminhada. Chegando em casa, lava o barracão, todos tomam banho com aquela água e todos
entram de preceito. São as águas de Oxalá com rosas brancas. E neste dia comemos canjica
com tempero e acaçá.


Aí vem o mês de janeiro, que não é para gente, nem o final do ano e nem o começo. Dia 20 de
janeiro é dia de Oxossi/Mutakalambo, nesta festa servimos o que Ogum plantou e que Oxossi
está colhendo, a fartura. Então servimos todos os grãos, todas as frutas que têm semente,
fartura, muita caça. Esse é o mês da fartura. Esù, Oxossi e Ogum, são irmãos, eles trabalham
juntos.


A comida de terreiro e de Kilombo é a comida que dá sustância, que faz o negro ter força,
garra, estratégia.

E você sabe por que você encontra uma vasilha na rua com farinha, cigarro, cachaça e uma
vela? Quase ninguém sabe disso! É para tratar de Esù? Não! É porque quando o negro fugia da
senzala, ele ficava perdido no mato.

Na senzala eles faziam o canto, batuque para enganar o senhor da senzala! Enquanto eles
enganavam, o negro fujão estava na estrada, na trilha. Sempre tinha uma pessoa designada
para levar a farinha ou com cachaça ou com açúcar misturada em um Alguidar – um prato de
barro- lá para o meio do mato. Levava cachaça, fumo, e uma vela para alimentar o negro que
estava fugido no meio do mato, ele alimentava com a farinha, bebia a cachaça para não sentir
dor, a água ele achava em qualquer lugar, e a vela era para iluminar o caminho dele, esse é o
segredo de por Esù na rua, ele fica na rua para guiar nossos passos, Esù é o Deus da
comunicação, ele que nos traz, abre seu caminho, guarda seu portão, traz tudo, e é seu
guardião para que nada de ruim atravesse seu portão, a sua linha de trem, a sua trilha. Então é
por isso que colocamos Esù na rua.